2017-2018

Sans titre Sans titre Sans titre Fechei o ano como quem vira uma página. Foi um ano muito difícil, de muita dor, de muitas lutas e a brincar contra um certo mau olhar. Muitas decisões foram tomadas, nem sempre fáceis, claro! Fiz novamente a mala e mudei-me para a cidade. Aproximei as irmãs e juntei-me a elas, porque somos uma família. Quis viver o centro de Lisboa, como há 20 anos atrás. Novos desafios foram lançados. Recuperar um apartamento que há muito não era habitado, poder restaurá-lo mais ou menos a gosto e, sem grande despesa, integrar uma mobília de família esquecida que encaixa na perfeição neste novo espaço. A porta da Cocheira Atelier ficará fechada e os muitos projectos relacionados com a lã, adormecidos. A produção do novo azeite também ficou comprometida devido aos incêndios de Outubro passado. Tudo ardeu à volta. O olival escapou como um oásis em pleno deserto. A terra estava cuidada e, apesar da seca, as oliveiras ofereciam frutos generosos. Passei o ano a estudar, apoiada nos apontamentos do F. e dum livro escrito com extrema sabedoria, conhecimento e beleza sobre “Azeitonas”, de Mort Rosenblum. Um livro que recomendo vivamente para quem o consegue fazer chegar do Brasil. Com ele fiz do dever um prazer. A apanha estava agendada, homens e mulheres rogados. O fogo aniquilou famílias e sonhos. Vi o desespero de quem vive das suas terras, de quem habita a sua casa. Duas famílias recolheram as azeitonas do Valle da Velha que o vento e a chama não levaram. Ainda temos azeite bom, eles já não tinham nada! 2017 ficou para trás. Olho para 2018, sem saber por onde vou. Caminhar e pedalar parece-me um excelente desafio para me familiarizar com a cidade. Azeitonas Vida e Saga de um Nobre Fruto De Mort Rosenblum Edição: Rocco, 1999

A última fotografia de família

A última foto de família Agosto 2016. Foi nos degraus daquela casa que foi tirada a última fotografia de família. Nós os 5. Nos mesmos degraus onde há 19 anos conheci o Filipe, onde houve a promessa de Mille Ans d'Amour. Filipe partiu. Não vou partilhar aqui a dor que nos causa. Partiu cedo, cedo demais. Convivíamos com a doença, fazia parte da rotina, com altos e baixos, mas acreditávamos piamente em melhores dias, acreditávamos, sobretudo, na ciência e esperávamos. Não sei dos dias que virão. Tenho compromissos na primeira pessoa, em nome da xuxudidi, até ao Natal. Estarei presente no primeiro e terceiro fim-de-semana do mês de Dezembro no Mercado Crafts & Design, em Lisboa, e há a promessa duma venda de Natal na semana que antecede as festas na Retrosaria. Depois… vem um período de recolhimento… um novo ano… e só me ocorre dizer "não sei"!

Um presente de nascimento

Um presente de nascimento Um presente de nascimento Um presente de nascimento De cada vez que nasce um bebé, fico feliz, muito feliz mesmo, como se esse nascimento fosse da família. Pergunto-me muitas vezes de onde advém essa felicidade. Há 14 anos que saí da cidade. Nas aldeias, os sinos tocam. Tocam para marcar as horas. Tocam para anunciar as Avés Marias. Tocam para anunciar o falecimento de alguém. Raros são os dias em que o sino não relembre a perda duma pessoa. O toque é penetrante e infinito. Há códigos diferentes para anunciar o falecimento duma mulher ou de um homem. Temo o sino da igreja. Acho-o sinistro e como se não bastasse, toca para anunciar o funeral. Nas aldeias, há cada vez menos casamentos e desde que vivemos no Baixo-Alentejo, nunca ouvi o som alegre saíndo da torre da igreja, espalhando pelo ar o acontecimento feliz. Queria que os sinos tocassem quando houvesse um nascimento. Um som a espalhar a alegria (boa nova) dum evento que se faz cada vez menos nas nossas aldeias. Tricotei 4 pares de meias para o pequeno Tiago que nasceu bem longe da minha aldeia, tão longe de Portugal… lá, para os lados da fria Finlândia. Umas meias para uns pezinhos que não pararão de crescer nos próximos anos. Essa foi a forma que encontrei de dar como presente de nascimento.

O rosto de quem escreve

O rosto de quem escreve O rosto de quem escreve Partilhei com um amigo o meu entusiasmo sobre a recente descoberta duma escritora. Contava-lhe que andava à procura dos seus livros em bibliotecas mas a escassa oferta fez-me comprar tudo o que pudesse aparecer à minha frente nas livrarias. Quando gosto, tenho essa tendência curiosa de ler mais e mais sobre o mesmo autor. Foi assim com a Marguerite Duras, tinha então 15 anos. Seguiram-se muitos outros como a Amélie Nothomb, Dulce Maria Cardoso, Afonso Cruz, Ondjaki… Nunca me lembrei de espreitar ou ter a curiosidade de ver o rosto de quem escreve mas a pergunta que o meu amigo me fez, interpelou-me. Será que a minha leitura pudesse ficar mais condicionada, conhecendo eu a cor do cabelo, a estatura, a magreza ou a formosura de quem profere tal escrita? Será que a careca do Valter Hugo Mãe influenciou a minha leitura dos seus livros? A perplexidade da pergunta faz-me pensar. Não paro de pensar. É verdade. Nunca tive a curiosidade de procurar na net o retrato de quem quer que seja. Afinal preferia ver as mãos. Essas deveriam ser o retrato de quem escreve. Preferia ver o lugar da escrita, uma mesa, um papel, uma caneta, um computador, um gravador, uma paisagem. Acabei por ver o retrato da autora na contra capa dum livro. Num outro, as fotografias da sua infância ilustravam a sua escrita. O processo foi natural. Ela apresentou-se a mim. Eu não me apresentei a ela, nem a nenhum autor em geral. Fará diferença? GRETA GARBO Sou parecida com a Greta Garbo. Durante anos fui muda. Depois Garbo talks. Depois em Ninotchka Garbo laughs. Fico na Ninotchka, Adília laughs. Não quero acabar os meus dias num cantão da Suíça atrás de uns óculos escuros. Era só o que me faltava. In Manhã de Adília Lopes Assírio & Alvim, 2015

Sem medo

Sem medo #tricot #knitting Ao longo dos anos, nessa difícil aprendizagem de ser mãe, fui ganhando medo, não tanto de proferir palavras mas sim de escrevê-las. Uma espécie de complexo apoderou-se da minha pessoa. É tão difícil ser-se estrangeira em casa de portugueses. A sensação de ser lida no blog, fez com que me sentisse ainda mais insegura. Por essa razão, fui pedindo a ajuda da minha família na revisão dos textos antes de serem editados para que quem espreitasse a minha janela, pudesse me ler de maneira legível e, o mais importante, ser compreendida. Achava que, com frases pequenas, me safaria. Neste preciso momento em que escrevo, não tenho ninguém por perto e passará a ser assim. Vencer a vergonha de ser estrangeira a escrever em língua portuguesa. Deixar igualmente de esperar que alguém me acuda para finalmente publicar. Sem medo, exponho os meus erros gramaticais, os meus erros ortográficos e sintácticos. Vencer o medo é crescer. Ao fim de tantos anos realizo o grande desejo de tricotar uma camisola com agulhas circulares ou, por outras palavras, uma camisola sem costuras. Mas voltarei a falar dela quando estiver acabada. Sem medo, tenho muitos posts para pôr em dia!