Tricot, livro e afins

Tricot, Livro e afins Les chaussettes vertes Os novos cachecóis Os meus dias levam uma certa disciplina para poder levar avante os deveres e projectos que construam a jornada. Há já alguns bons anos que dedico os meus serões ao tricot porque a noite, a minha vista já não alcança as linhas e as agulhas. É a altura em que finalmente me sento no sofá e durante uma hora ou duas, estou à volta das agulhas de tricot. Estou prestes a acabar umas meias para condizer com um par de Kickers adquirido no inicio deste verão a um preço de fazer inveja a muitas bolsas. Mondim foi o fio escolhido. Procurava o verde igual a label do lado direito da minha bota, para levar a bom bordo os meus dias! Quase a acabar as meias e a pensar no tricot que se seguirá. Viver muito longe dos centros urbanos tem as suas vantagens mas confesso, no que diz respeito a escolha das lãs, estou definitivamente em desvantagem. Embora haja múltiplas escolhas possíveis on-line, preciso de ver e tocar a lã. Também gosto da cheirar! Conhecendo a Beiroa, decidi-me por comprar o mostruário de cores. Gostava de ver mais lojas a fazer o mesmo, porque começa-se a produzir em Portugal uns fios muito bonitos mas devido às longas distancias não me atrevo a arriscar. Em casa, com o mostruário e um livro recentemente publicado, a C. pude escolher a cor da camisola que brevemente vou iniciar. Sentimental Tricot? Há muito que ansiava por encontrar um livro como o da Alice Hammer. O livro é a minha cara. O site é muito interessante e convido a uma leitura atenta em francês ou em inglês. Optei por comprar o livro porque é muito completo e tenho a certeza de que vou acabar por tricotar todos os modelos propostos ao longo dos próximos anos. Os modelos são criados pela própria Alice H. baseando-se em modelos tradicionais. O livro consegue ser despretensioso, simples, muito bonito, e gosto muito do design gráfico. É um livro para ser espalhado aos 4 ventos, para ter na nossa biblioteca. Proeza, há uma edição francesa e outra em inglês! E porque a distancia tem destas coisas, acontece-me ter sobras de lã. Este ano, levei as meadas restantes para as tecedeiras da Cooperativa Oficina de Tecelagem de Mértola. Ainda consegui obter uns lindos cachecóis que vou oferecer no Natal. Na fotografia, o cachecol bege foi tecido à partir da sobra deste colete tricotado num fio da Noro, o cachecol castanho é duma meada da Beiroa. Os outros prometo mostrar depois da época natalícia. Não vão uns olhares curiosos descobrir as prendas que tenho para oferecer!

O Cró da Osga

O cró da osga Posso jurar, li algures no livro Dobra - Poesia Reunida de Adília Lopes que a osga faz cró. Mas agora que procuro o som da osga, não encontro a página. Nunca tive tempo para as osgas. Porém, vendo agora uma no tecto arranjarei tempo para procurar no livro da Adília o grito da osga porque, como ela apontou é parecido com o ruído do computador a engolir a disquete. Não sabia que a osga grita. Não sei se alguma vez, alguma gritou ao pé de mim porque não me lembro de tapar os ouvidos ou ficar perturbada. Mas é verdade, nunca tive tempo para as osgas. Dobra - Poesia Reunida de Adília Lopes Assírio & Alvim

O azeite na literatura

O azeite na literatura Pude aproveitar a "Rentrée Littéraire", em setembro passado. Numa pequena cidade francesa, entrei numa minúscula livraria, repleta de livros, de bons livros, muitos clássicos franceses e estrangeiros (também havia autores portugueses traduzidos). Andava (e ando) tão desactualizada no que toca ao panorama actual de escritores que acabei por pedir conselho. O livreiro apresentou-me os livros recentemente publicados e falou-me de cada uma das obras. Foi tão fascinante ouvi-lo, sentir da mesma forma o quanto ele ama a sua profissão, que teria levado uma montanha de livros comigo. Levei somente o que a carteira podia suportar. Entre eles, Les Prépondérants de Hédi Kaddour. Na página 236, dei de cara com um paragrafo completo que resume na perfeição a história do nosso azeite. A única palavra que teria de emendar seria a mula que foi entretanto substituída pelo motor eléctrico. De resto, faço das palavras do Hédi Kaddour, as minhas. Belkhodja, c'était un roi du tapis, mais il ne connaissait pas grand-chose à l'huile d'olive, sinon qu'elle pouvait rapporter beaucoup. Si Ahmed avait commencé à lui en raconter l'histoire, les Romains, la région couverte d'oliviers, puis la ruine pendant des siècles, et la reconquête, des plants vieux de plus de cent ans, tu sais qu'un arbre donne ses plus belles récoltes entre cinquante et cent cinquante ans? et le pressage, le pressage à froid… Si Ahmed avait claqué dans ses mains, un serviteur était entré, geste de la main de Si Ahmed, le serviteur était revenu avec une assiette et une coupelle qui contenait du sel, il avait posé l'assiette et la coupelle sur la table basse devant Si Ahmed et Belkhodja, il avait pris dans un coin de la pièce une aiguière en argent, une bassine et une serviette, "pose ça!" avait dit Si Ahmed qui avait tenu à verser lui-même l'eau sur les mains de son hôte. Belkodja lui avait rendu la pareille pendant que le serviteur s'éclipsait pour revenir avec un pain rond dont l'odeur tiède avait envahi la pièce, et une bouteille remplie d'une huile d'un vert si tendre qu'il en était presque doré, il avait mis le tout sur la table, "laisse-nous!" avait ordonné Si Ahmed qui avait contemplé la table avec un soupir de satisfaction, "maintenant tu vas comprendre", avait-il dit à Belkhodja en versant une belle flaque d'huile dans l'assiette, puis il avait pris une pincée de sel, l'avait répandue sur l'huile, il avait rompu le pain rond, en avait détaché un morceau, croûte et mie, avait trempé le morceau de pain dans l'huile, et l'avait tendu à Belkhodja, le pain sentait bon, la tiédeur faisait se répandre les arômes de l'huile et Belkhodja avait eu dans la gorge un goût qui pouvait devenir celui de sa richesse, Si Ahmed disant: on sent même la qualité du mulet qui a fait tourner la meule à concasser les olives, une bête patiente, bien nourrie, pas aussi forte qu'un boeuf ou un chameau, on n'en a pas besoin, pas trop lourde la meule, et il ne faut pas mettre trop d'olives à la fois dans le broyeur, le bon concassage doit être fin mais rester consistant, la qualité du mulet, et ensuite la qualité des scourtins, mon ami, les filtres du préssoir, la finesse de l'alfa des scourtins, et la qualité des bras des hommes au pressoir, des hommes dignes de faire sortir l'or liquide, et j'allais oublier: cueillette à la main, pas au bâton, ne jamais brutaliser l'arbre, sinon les fruits s'en souviennent. Les Prépondérants de Hédi Kaddour Éditions Gallimard, 2015
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Os livros escolares

Recorri a este movimento de cidadania, para me ver livre dos livros escolares que fomos acumulando ao longo dos anos. Na verdade, nunca vi o meu dinheiro tão mal gasto. Todos os anos, com o regresso às aulas, fico com o mesmo nó na garganta. A despesa escolar é uma loucura escandalosa. Temos 3 filhas que se seguem e a mais nova, este ano escolar, nem pode recuperar um único livro das irmãs. Para que serve guardá-los se alguns até estão completamente novos, pois nunca foram utilizados pelos professores durante o ano lectivo. Um verdadeiro desperdício de livros e dinheiro que, espero eu, talvez ainda possam vir a ter novos usos.

Os livros escolares

Desperdícios escolares Recorri a este movimento de cidadania, para me ver livre dos livros escolares que fomos acumulando ao longo dos anos. Na verdade, nunca vi o meu dinheiro tão mal gasto. Todos os anos, com o regresso às aulas, fico com o mesmo nó na garganta. A despesa escolar é uma loucura escandalosa. Temos 3 filhas que se seguem e a mais nova, este ano escolar, nem pode recuperar um único livro das irmãs. Para que serve guardá-los se alguns até estão completamente novos, pois nunca foram utilizados pelos professores durante o ano lectivo. Um verdadeiro desperdício de livros e dinheiro que, espero eu, talvez ainda possam vir a ter novos usos.

O rosto de quem escreve

O rosto de quem escreve O rosto de quem escreve Partilhei com um amigo o meu entusiasmo sobre a recente descoberta duma escritora. Contava-lhe que andava à procura dos seus livros em bibliotecas mas a escassa oferta fez-me comprar tudo o que pudesse aparecer à minha frente nas livrarias. Quando gosto, tenho essa tendência curiosa de ler mais e mais sobre o mesmo autor. Foi assim com a Marguerite Duras, tinha então 15 anos. Seguiram-se muitos outros como a Amélie Nothomb, Dulce Maria Cardoso, Afonso Cruz, Ondjaki… Nunca me lembrei de espreitar ou ter a curiosidade de ver o rosto de quem escreve mas a pergunta que o meu amigo me fez, interpelou-me. Será que a minha leitura pudesse ficar mais condicionada, conhecendo eu a cor do cabelo, a estatura, a magreza ou a formosura de quem profere tal escrita? Será que a careca do Valter Hugo Mãe influenciou a minha leitura dos seus livros? A perplexidade da pergunta faz-me pensar. Não paro de pensar. É verdade. Nunca tive a curiosidade de procurar na net o retrato de quem quer que seja. Afinal preferia ver as mãos. Essas deveriam ser o retrato de quem escreve. Preferia ver o lugar da escrita, uma mesa, um papel, uma caneta, um computador, um gravador, uma paisagem. Acabei por ver o retrato da autora na contra capa dum livro. Num outro, as fotografias da sua infância ilustravam a sua escrita. O processo foi natural. Ela apresentou-se a mim. Eu não me apresentei a ela, nem a nenhum autor em geral. Fará diferença? GRETA GARBO Sou parecida com a Greta Garbo. Durante anos fui muda. Depois Garbo talks. Depois em Ninotchka Garbo laughs. Fico na Ninotchka, Adília laughs. Não quero acabar os meus dias num cantão da Suíça atrás de uns óculos escuros. Era só o que me faltava. In Manhã de Adília Lopes Assírio & Alvim, 2015