A manta dos meus amores

A manta dos meus amores A manta dos meus amores A manta dos meus amores A manta dos meus amores Nunca esquecerei os nossos abraços, o meu corpo colado ao teu. Da hora do teu regresso, das tuas despedidas também. Nunca esquecerei as gavetas do camiseiro, da participação conjunta na escolha da camisa. Opinávamos, eu e as tuas filhas. Nunca esquecerei o laço que pacientemente atavas à volta da gola, os punhos para encerrar o braço, o fato que deixava entrever a camisa. Nunca esquecerei os Invernos, as tuas camisas mais espessas sobre as calças de surrobeco, e o “débardeur” a condizer. Nunca esquecerei as Primaveras, os Verões também. As cores, o folclore por vezes. Mas eras tu. Só tu. Queria ter esquecido as camisas de outras fardas mas é com elas que correm espigas na manta agora tecida. Não esqueço não cada pedaço desta manta, que há de passar de mão em mão mas que agora abraço para não esquecer o teu perfume. ... *Agradeço as pessoas directamente envolvidas num projecto tão pessoal como “a manta dos meus amores”. A Marlene que pacientemente rasgou as camisas nos seus serões; a Cooperativa Oficina de Tecelagem de Mértola pela execução da manta em tempo e horas; às minhas filhas pela escolha acertada das muitas camisas que o pai vestia. Afinal, hoje faria anos!

O meu luto

Na Mesclamalva, antiga fábrica de lanifícios Camello À minha maneira faço o meu luto À minha maneira faço o meu luto À minha maneira faço o meu luto O meu luto tem cor, cada ponto um pensamento. Não vesti o preto e apesar de saber que o Filipe me queria como uma viúva alegre, carrego o peso da palavra ditado pela sociedade. Hibernei envolta na lã do meu primeiro tapete de Arraiolos. Tenho feito a aprendizagem através da leitura atenta dum maravilhoso livro História e Técnica dos Tapetes de Arraiolos de Fernando Baptista de Oliveira. De resto, sigo a dica duma amiga de que tudo vale. Vou dando o ponto com lãs escolhidas a dedo. O tapete não é para mais ninguém e com ele, faço o meu luto. O meu luto habita os cantos da casa. Compulsivamente, re-arrumei-a. Mudei a ordem seguindo o instinto.Também abri alguns armários, despi os cabides da sua presença. Dei algumas roupas, sobretudo aos mais necessitados mas guardei as camisas. Desfeitas em fitas, vão ser tecidas para obter uma manta. A manta do meu luto, às cores, com alegria porque assim era o Filipe. O silêncio por cá também é o meu luto. Sem precipitação, vou emergindo. O meu regresso com a Primavera.

Por trás dos montes

Por trás dos montes Por trás dos montes Por trás dos montes Por trás dos montes Jamais poderei esquecer o ano de 2016. Foi um ano muito duro onde fomos postas à prova. Houve muitas emoções e esperanças. Houve fraquezas e uma imensa tristeza. Desejar manter os meus compromissos até ao fim do ano obrigou-me a sair da minha zona de conforto, a me confrontar com a realidade. Para poucos dias, mas juntas, porque era isso que importava, fomos a Trás-os-Montes, junto ao Douro Internacional. Viajar fortalece os laços. O foco é único e a partilha é infinita. E tudo ajuda, os amigos, os encontros, os animais, a paisagem, a natureza. Estou infinitamente grata!

A última fotografia de família

A última foto de família Agosto 2016. Foi nos degraus daquela casa que foi tirada a última fotografia de família. Nós os 5. Nos mesmos degraus onde há 19 anos conheci o Filipe, onde houve a promessa de Mille Ans d'Amour. Filipe partiu. Não vou partilhar aqui a dor que nos causa. Partiu cedo, cedo demais. Convivíamos com a doença, fazia parte da rotina, com altos e baixos, mas acreditávamos piamente em melhores dias, acreditávamos, sobretudo, na ciência e esperávamos. Não sei dos dias que virão. Tenho compromissos na primeira pessoa, em nome da xuxudidi, até ao Natal. Estarei presente no primeiro e terceiro fim-de-semana do mês de Dezembro no Mercado Crafts & Design, em Lisboa, e há a promessa duma venda de Natal na semana que antecede as festas na Retrosaria. Depois… vem um período de recolhimento… um novo ano… e só me ocorre dizer "não sei"!

Para cá para là

Mini berlingot O estojo das fórmulas químicas Estojo "Paris" Vou me fazer à estrada para espalhar almofadas no novo quarto da Ju. As almofadas funcionam como uma história de afectos que se abraçam quando não se tem a família por perto. Aprendo a escutar os novos silêncios da casa. Há dias que não ponho uma roupa a lavar. Sobra comida no tacho. Há pão a mais no taleigo. Não há portas que se abrem e deixei de ouvir a música delas. A M. também entrou na faculdade e a C. está comigo não sei por mais quanto tempo. Para mais um regresso às aulas, fiz-lhe um novo estojo com padrões de algumas fórmulas químicas. Servirá como novo estímulo. (Para quem anda à procura do seu, há mais aqui). No fim do dia, após as aulas vamos ao encontro das manas. Estarmos juntas e vivermos uma outra casa. Bom fim de semana!

A nossa praia

A nossa praia A nossa praia A nossa praia A nossa praia Digo "praia" porque tem água e no meio da rocha, um oásis com eucaliptos, areia fina, uma casinha de apoio para fazer todo o tipo de grelhados, uma mesa muito comprida feita com desperdícios das obras vizinhas e dois postos eléctricos deitados ao longo para servir de banco. É a nossa praia. De longe a minha preferida nesta altura do ano porque tudo em volta é silêncio ou seja, só se ouvem os sons da natureza se bem que de vez enquanto apareça um carro ou uma motoreta para irem pescar mas, ninguém se atropela! Tudo tão perto de casa. Mas o que mais gosto nesta praia são os nossos piqueniques que ali fazemos, ao almoço mas sobretudo ao jantar quando os dias são agora mais longos. Surpreendidos pela vaga de calor, viemos refugiar-nos na nossa praia, procurar a sombra e a brisa desejada. E tivemos companhia. Do outro lado da rede, aquela que demarca o nosso oásis, as ovelhas amontoaram-se para esconder a cabeça na sombra. Esta é a minha paisagem na quietude intelectual do Alentejo rural!