Tricotar para usar, encabeçar, reciclar e reutilizar

Tricotar para usar, encabeçar, reciclar e reutilizar Tricotar para usar, encabeçar, reciclar e reutilizar Tricotar para usar, encabeçar, reciclar e reutilizar Tricotar para usar, encabeçar, reciclar e reutilizar Tricotar para usar, encabeçar, reciclar e reutilizar Tricotar para usar, encabeçar, reciclar e reutilizar Volta e meia regresso à Cooperativa de Tecelagem de Mértola. Gosto de ver as tecedeiras em actividade, de ouvir o bater do tear neste espaço museológico. Na minha última passagem enamorei-me dumas meias de algodão. Os dois primeiros pares chamaram-me a atenção, pelo comprimento, pelas cores e pela beleza dum trabalho feito e tricotado à mão. Houve um tempo em que as mulheres não usavam calças para ceifar ou para mondar. Calçavam meias de algodão até a altura das coxas, presas por elásticos ou por fitas de nastra debaixo das saias. Mais tarde, com o aparecimento das calças, as meias passaram a ser usadas mais curtas. Com o tempo, o uso e as lavagens (não havia máquina de lavar a roupa) as meias iam perdendo a cor e ficando gastas, sobretudo nas partes do calcanhar e eram parcialmente desmontadas para voltarem a ser tricotadas com um fio novo. Não se tratando dum remendo, chamavam-lhe "encabeçar a meia". É por esta razão que uma grande parte das meias acabam por ter várias tonalidades. Chegam às mãos das tecedeiras de Mértola pares de meias de algodão que pacientemente vão desfazendo para criarem novos novelos que, mais tarde, serão tecidos para dar forma a novas toalhas. O fio extraído da meia apresenta-se matizado, conferindo à peça tecida cores subitamente tão bonitas e únicas. Utilizar, reciclar, reutilizar.

Um presente de nascimento

Um presente de nascimento Um presente de nascimento Um presente de nascimento De cada vez que nasce um bebé, fico feliz, muito feliz mesmo, como se esse nascimento fosse da família. Pergunto-me muitas vezes de onde advém essa felicidade. Há 14 anos que saí da cidade. Nas aldeias, os sinos tocam. Tocam para marcar as horas. Tocam para anunciar as Avés Marias. Tocam para anunciar o falecimento de alguém. Raros são os dias em que o sino não relembre a perda duma pessoa. O toque é penetrante e infinito. Há códigos diferentes para anunciar o falecimento duma mulher ou de um homem. Temo o sino da igreja. Acho-o sinistro e como se não bastasse, toca para anunciar o funeral. Nas aldeias, há cada vez menos casamentos e desde que vivemos no Baixo-Alentejo, nunca ouvi o som alegre saíndo da torre da igreja, espalhando pelo ar o acontecimento feliz. Queria que os sinos tocassem quando houvesse um nascimento. Um som a espalhar a alegria (boa nova) dum evento que se faz cada vez menos nas nossas aldeias. Tricotei 4 pares de meias para o pequeno Tiago que nasceu bem longe da minha aldeia, tão longe de Portugal… lá, para os lados da fria Finlândia. Umas meias para uns pezinhos que não pararão de crescer nos próximos anos. Essa foi a forma que encontrei de dar como presente de nascimento.