O rosto de quem escreve

O rosto de quem escreve O rosto de quem escreve Partilhei com um amigo o meu entusiasmo sobre a recente descoberta duma escritora. Contava-lhe que andava à procura dos seus livros em bibliotecas mas a escassa oferta fez-me comprar tudo o que pudesse aparecer à minha frente nas livrarias. Quando gosto, tenho essa tendência curiosa de ler mais e mais sobre o mesmo autor. Foi assim com a Marguerite Duras, tinha então 15 anos. Seguiram-se muitos outros como a Amélie Nothomb, Dulce Maria Cardoso, Afonso Cruz, Ondjaki… Nunca me lembrei de espreitar ou ter a curiosidade de ver o rosto de quem escreve mas a pergunta que o meu amigo me fez, interpelou-me. Será que a minha leitura pudesse ficar mais condicionada, conhecendo eu a cor do cabelo, a estatura, a magreza ou a formosura de quem profere tal escrita? Será que a careca do Valter Hugo Mãe influenciou a minha leitura dos seus livros? A perplexidade da pergunta faz-me pensar. Não paro de pensar. É verdade. Nunca tive a curiosidade de procurar na net o retrato de quem quer que seja. Afinal preferia ver as mãos. Essas deveriam ser o retrato de quem escreve. Preferia ver o lugar da escrita, uma mesa, um papel, uma caneta, um computador, um gravador, uma paisagem. Acabei por ver o retrato da autora na contra capa dum livro. Num outro, as fotografias da sua infância ilustravam a sua escrita. O processo foi natural. Ela apresentou-se a mim. Eu não me apresentei a ela, nem a nenhum autor em geral. Fará diferença? GRETA GARBO Sou parecida com a Greta Garbo. Durante anos fui muda. Depois Garbo talks. Depois em Ninotchka Garbo laughs. Fico na Ninotchka, Adília laughs. Não quero acabar os meus dias num cantão da Suíça atrás de uns óculos escuros. Era só o que me faltava. In Manhã de Adília Lopes Assírio & Alvim, 2015

A roca de alfazema

A roca de alfazema Não dispenso uns pés de alfazema. É uma planta que me fascina pela sua forma, a sua cor, pelo seu volume, o seu perfume e até a azáfama das abelhas e o som que elas produzem. São as memórias da minha infância que surgem cada ano nesta época. As rocas permitem prolongar estas memórias durante o correr das estações, perfumando gavetões e armários. Trazem sol em dias de chuva e de frio. Fazer uma roca é relativamente simples. Requer paciência e a vontade de a fazer. Não há idade e ainda é melhor se fizerem participar os mais jovens nessa tarefa. A roca de alfazemaA roca de alfazema A roca de alfazema A roca de alfazema A roca de alfazema A receita É preciso colher a alfazema na altura em que se fará a roca porque, uma vez seca, já não é flexível. Escolher uma quantidade de ramos, cuja divisão por 2 dê um numero impar (ex: 38:2=19). Limpar o caule e juntá-los para formar um ramo. Atar juntamente com a extremidade da fita escolhida, com o fio do norte. Para fazer as duas ou três voltas seguintes com a fita, utilizo um copo colocando o ramo do avesso e vou baixando o caule da alfazema em redor do copo. A seguir, pego na fita e vou tecendo dois a dois os ramos (a fita passa, ora para cima, ora para baixo). Após as primeiras voltas terem sido dadas, pego na roca, abato os ramos encerrando as flores, aperto a fita e continuo a dar as voltas necessárias até sentir que toda a alfazema ficou presa no seu interior e dou um nó. Após uns dias, a alfazema ao secar pode encolher e por vezes é necessário esticar a fita trançada. Para isso, basta desfazer o nó e voltar a ajustá-lo.

Vai acontecer no Jardim da Estrela

Vai acontecer no Jardim da Estrela Vai acontecer no Jardim da Estrela Para responder ao mote "Lisboa", com os seus arraias, sardinhadas e manjericos lançado pela organização Crafts & Design, levo no próximo fim de semana as têtes de nègres, embora desta vez venham mais duas alentejanas e uma algarvia para fazer jus à arte popular com a qual convivo diariamente. No meu jardim não crescem manjericos mas as alfazemas largam um perfume que quis apreender formando umas maçarocas para perdurar o seu cheiro característico próprio desta época que, depois de secos, permanecem o ano inteiro a perfumar as nossas casas. Sejam todos bem-vindos!