Trinta e tal

Trinta e tal...

Estou deitada no sofá a ler a nova edição da Granta. “Casa” é a minha cara.
Há trinta e tal anos trocava a casa dos meus pais para um novo país, e desde então muitas foram as casas que eu já habitei.
Há trinta e tal anos chegava de comboio no Sud Expresso, na Estação de Santa Apolónia, em Lisboa. Estava sozinha, com uma vontade de conquistar o mundo. Trinta e tal anos depois pensei em voltar a fazer essa viagem, procurar os fantasmas que habitam a minha memória.
Deitada no sofá, leio Haruki Murakami “Trinta e tal anos. Uma coisa vos garanto: quanto mais velha uma pessoa fica, mais solitária se torna. Isto vale para toda a gente. Mas talvez não esteja errado. O que pretendo dizer é que, de certo modo, as nossas vidas não passam duma série de etapas que nos vão ajudar a conviver melhor com a solidão. Nestas circunstâncias, não faz sentido amaldiçoarmos a sorte. Além disso, e pensando bem, a quem podemos queixar-nos?”*
Trinta e tal.
Trinta e tal anos e vejo, na minha filha o vestido que foi meu.

* “Um Passeio a Kobe” publicado na 3ª edição da Granta

2 comments on “Trinta e tal

  1. Rosário Albuquerque

    Ainda recentemente tive essa mesma conversa com a minha mãe. No fim, somos nós. Nem pais, nem filhos, nem companheiros.
    Mas de facto, talvez não esteja errado. Se calhar é aí que começamos a ver melhor tudo o resto?

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