Setembro

Também foi palácio dos Maldonados

Setembro é sempre assim.
Há o regresso das férias, o inicio das aulas, o fim do Verão.
O arranque do novo ano lectivo é, nos últimos anos, uma pequena dor de cabeça.
Este ano, esta dor é acentuada pelas incertezas e por um crescente descontentamento ao nível do Ministério da Educação e da visão que este tem para com o futuro dos jovens, nomeadamente das minhas filhas.
(Não vou falar das grandes cidades, mas sim das pequenas terras que constituem este Portugal, tão esquecidas no mapa regional.)

O Baixo-Alentejo será para os próximos tempos a nossa casa. Já o foi durante dois anos e apesar dos esforços constantes da Direcção do Agrupamento de Escolas de Mértola, sinto que se poderia fazer muito mais, se não houvesse o isolamento tão hermético dos Concelhos, oferecendo uma maior estratégia entre os municípios nas organizações escolares.

Fazemos do Baixo-Alentejo a nossa casa porque digo NÃO ao mega-agrupamento que surgiu em Abril passado na Beira-Alta, berço da infância das minhas filhas. Acredito que não seria o melhor caminho para uma criança como a J. que requer um espaço escolar mais do tipo familiar, em suma, uma escola mais pequena e humana.

Mas, se para a J. encontro um espaço favorável, já não o é para a mais velha que muda de ciclo, obrigada a fazer uma escolha numa área que, aos 15 anos, será determinante para o futuro dela.

A M., vê-se assim obrigada a deixar a casa durante a semana para frequentar o liceu. Não é a única. Há na realidade, de Norte a Sul do país, jovens que precocemente deixam o lar para fazerem seu, as residências de estudantes que o Ministério da Educação tem ao dispor.

E os cortes orçamentais na Educação também se ressentem nestas instituições.
Aquela que será a residência da M., inaugurada há mais de 20 anos pelo então Primeiro Ministro Cavaco Silva, contava com um efectivo de 15 pessoas. Hoje, os empregados contam-se pelos dedos duma mão!

A realidade é alarmante. Espantam-se com a desertificação do Interior de Portugal mas em nada o Estado permite e neste caso concreto na Educação, uma legislação talvez mais branda quanto à formação de turmas e números de alunos, uma melhor articulação em torno dos transportes públicos entre Concelhos vizinhos, evitando assim um êxodo rural.
Cortes orçamentais na Educação, são cortes na qualidade do ensino, o apodrecimento lento do futuro deles e já agora, do nosso!

Setembro, nem sempre foi assim!

9 comments on “Setembro

  1. Paula

    É de facto chocante, e penso que muita gente não tem noção dessa realidade. A mim não passava pela cabeça que houvesse jovens a sair de casa aos 15 anos para poder frequentar a escola. Muito menos um mundo de residencias estudantis tão jovens…É mais uma grande falha entre as tantas em que o nosso sistema de ensino se afunda.
    É uma verdade que deve ser contada e espalhada. Afinal em Portugal quantos jovens haverá na mesma situação? Estes e ainda os que se deslocam quilómetros ainda de madrugada, justificariam certamente a abertura de pequenas turmas em pequenas localidades.
    Infelizmente estamos a desevoluir…

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  2. Rosa Belarte

    Eu entendo sua decepção, Diane.
    Vivemos num tempo socialmente regressivo,em educação, saúde e cultura e nao podemos aceitar esta situação.
    Eu não sei como, mas eu acho que nós devemos lutar
    e vai ser uma luta dura para os cidadãos de interesses econômicos. Pessoas versus negócio, que é a questão.
    Abraços, Diane todo o meu apoio!

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  3. claudia ribau

    Dei comigo a pensar: numa turma que tenho, de 30 alunos, numa aula de 45 minutos, não posso dedicar mais do que 1 minuto a cada um deles…e milagrosamente, por agora, ainda estou com algumas horas no recente agrupamento…Parabéns pela escolha, difícil, duma escola mais pequena!

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  4. Eunice Rodrigues

    Concordo com as suas palavras. Nos últimos 3 anos lectivos leccionei no Alto Alentejo. Só quem trabalha ou vive nestes meios mais pequenos é que tem verdadeira noção do que passam estes jovens. Quem está no Ministério a tomar decisões, infelizmente, não tem a mínima noção da realidade do interior do país e olha para a situação como números e não pessoas.

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  5. martinha martins

    É mesmo, eu vivo no Alentejo Litoral, e mais tarde ou mais cedo é o que acontece com os recém adolescentes caso continuem a estudar. Vim para cá pela qualidade de vida, posso ser uma gota no oceano contra a desertificação, mas é uma questão de persistir e aproveitar todos os bons momentos. Força para a M.!

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  6. Olga Lopes

    Concordo plenamente com o que diz. Adoro o Alentejo e o interior do país, onde tenho raízes e família. Já ponderei em ir viver para o interior, mas vou adiando exactamente pelo que disse,: tenho dois filhos que estão em idade de escolhas e as ofertas são importantes. Vou adiando, por isso, aquilo que cá dentro sinto que será inevitável.
    Acresce a isso, ter como marido um professor de artes cujo destino é sempre muito incerto. Num País em que a educação não é prioridade, resta-nos a garra e a luta de quem faz milagres diariamente para uma escola e educação melhores.

    Boas escolhas e muita sorte,
    Olga

    P.S.: Gosto muito do seu blog.

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