Mosqueiro

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Mosqueiro

O livro Atravez dos Campos de José da Silva Picão é uma verdadeira revelação, até para entender melhor os passos que vou dando nesta região. Hei-de voltar vezes sem conta a esta obra infelizmente incompleta sobre os usos e costumes da vida da lavoura no Alentejo. Començo por partilhar aqui mais uma receita, após o episódio do Poder do Limão, duma artimanha simples mas eficaz, um mosqueiro, citando uma passagem do livro, descrevendo assim a casa onde se prepara o queijo e outros lacticínios.

Queijeira. — … pelo tecto da casa pendem molhos de folhagem de sabugueiro ou freixo, a que chamam mosqueiros. Servem para atrahirem a si as moscas, que em enxames accodem ás queijeiras, onde como em toda a parte, se tornam importunas e nocivas, pelo menos apparentemente. Dizimam-n’as então com o auxilio do folhedo, onde se acoitam, artimanha simples de excellentes resultados.
Á noite, quando tudo está em socego, o roupeiro, (encarregado da queijeira), chega se aos mosqueiros, e, a cada qual, depois de lhe enfiar um sacco que segura pela bocca, agita-o com violencia para a moscaria se desalojar. O effeito manifesta-se logo por um sussurro alvorotado, indicio de boa caçada. Immediatamente vae-se tirando o sacco, devagarinho, saccudindo o miudo, até ficar de fóra com a bicharia no fundo e alguns fragmentos da folhagem. Sempre fechado pela bocca é batido no chão, despejando-se no lume. Reconhece-se então a importancia do apanho, que frequentemente attinge porções consideraveis…”

Atravez dos Campos
Usos e Costumes agricolo-alemtejanos
Volume I
de José da Silva Picão
Typogragraphia e Encadernação Progresso
Elvas, 1922

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