Almofada & Melancia

1 De melancia 1 É a primeira de muitas almofadas que hão-de povoar o sobrado, lugar pequeno que se quer muito acolhador. Os algodões foram encontrados numa retrosaria, separados das outras colecções de tecidos, arrumados na prateleira dos "ranchos"! A almofada segue connosco e com mais alguns frascos do doce de melancia, feito à última hora. A receita é bastante simples: Na bacia, deixar os 2,5 Kg de melancia cortados em cubos e limpos das graínhas + 1,5 Kg de açúcar granulado. Ao fim de 3 horas, acrescentar 2 limões (ou laranjas) cortados em finas rondelas com uma vagem de baunilha fendida no sentido longitudinal. Deixar ferver moderadamente durante uma boa hora. A melancia tem de estar confite. Escolhi dois métodos para conservar. Esta, para ficar em casa, a segunda para viajar até à outra casa. Até já!

Mosqueiro

Mosqueiro Mosqueiro O livro Atravez dos Campos de José da Silva Picão é uma verdadeira revelação, até para entender melhor os passos que vou dando nesta região. Hei-de voltar vezes sem conta a esta obra infelizmente incompleta sobre os usos e costumes da vida da lavoura no Alentejo. Començo por partilhar aqui mais uma receita, após o episódio do Poder do Limão, duma artimanha simples mas eficaz, um mosqueiro, citando uma passagem do livro, descrevendo assim a casa onde se prepara o queijo e outros lacticínios. "Queijeira. -- ... pelo tecto da casa pendem molhos de folhagem de sabugueiro ou freixo, a que chamam mosqueiros. Servem para atrahirem a si as moscas, que em enxames accodem ás queijeiras, onde como em toda a parte, se tornam importunas e nocivas, pelo menos apparentemente. Dizimam-n'as então com o auxilio do folhedo, onde se acoitam, artimanha simples de excellentes resultados. Á noite, quando tudo está em socego, o roupeiro, (encarregado da queijeira), chega se aos mosqueiros, e, a cada qual, depois de lhe enfiar um sacco que segura pela bocca, agita-o com violencia para a moscaria se desalojar. O effeito manifesta-se logo por um sussurro alvorotado, indicio de boa caçada. Immediatamente vae-se tirando o sacco, devagarinho, saccudindo o miudo, até ficar de fóra com a bicharia no fundo e alguns fragmentos da folhagem. Sempre fechado pela bocca é batido no chão, despejando-se no lume. Reconhece-se então a importancia do apanho, que frequentemente attinge porções consideraveis..." Atravez dos Campos Usos e Costumes agricolo-alemtejanos Volume I de José da Silva Picão Typogragraphia e Encadernação Progresso Elvas, 1922

Quase…

Quase Quase Quase... é assim que defino a outra casa quando perguntam por ela. O poço foi limpo do seu conteúdo. O último achado, rachado, está preciosamente guardado. O móvel que estava esquecido na cocheira e que fora duma mercearia do Pomarão há mais de 100 anos, não entrou à primeira pela porta. Está agora na cavalariça, hoje, a nossa sala de estar. Quase... Falta ainda a electricidade para acender o fogão mas, para remediar, é o forno do pão que será aceso para inaugurar a casa. Está quase! Quase

Caminhos de ferro

Caminhos de ferro Caminhos de ferro Caminhos de ferro Caía o dia no cais de embarque. Encurralado entre o mar e o rio Guadiana, misturavam-se vocábulos que na altura não entendia, grande agitação e muitos sacos, soldados e grades de cervejas, algarvios e vivos ao som do galináceo, velhos, jovens e eu. Há 30 anos atrás, fazia pela primeira vez a viagem do combóio nocturno dito "correiro", desde Vila Real de Santo António e com chegada a Lisboa na madrugada seguinte. A vivência desta viagem era única, memóravel. O combóio ía cheio duma amostra do Portugal da altura. Voltei a Vila Real de Santo António. A estação tem um ar de menina que não conseguiu domar o areal, portas abertas, guichet ainda fechado, tudo ficou tal qual a encontrei décadas antes. A obra arquitectónica da estação, de 1945, é de Cottinelli Telmo. É linda! Chegam notícias, um pouco de todo o lado, do encerramento de linhas de caminhos de ferro, do fecho de estações e não entendo. Os combóios têm uma história já secular em Portugal. Tiveram uma função de desenvolvimento rural, social, industrial, de comunicação desde os meados do século XIX. A CP, na figura dos seus antepassados, foi um marco neste desenvolvimento. Hoje está subdividida em multiplas empresas tais como a Refer, a CP Carga... Claro que não há dinheiro suficiente para alimentar estas administrações desmesuradas com mordomias exorbitantes, quando a função da CP é o transporte alternativo às vias rodoviárias e aéreas. Encerrar as estações e as linhas do caminho de ferro é isolar ainda mais o interior, deixando de se contribuir para o seu desenvolvimento. Fecham-se fábricas, fecham-se escolas, centros de saúde, estações de caminhos de ferro... Que futuro nos reservam? Read More

A pequena história

O cajado Passou-se há uns anos, na altura das festas de fim de ano. Estávamos sentados à mesa, Mitiku B. ao meu lado. Ele era um homem alto, como o são os etíopes. Iminente cirurgião bariátrico, a sua simplicidade contrastava com a posição social. Estávamos entre amigos e partilhávamos o queijo da nossa terra (queijo da serra), partilhávamos o pão. Sempre tive orgulho nesta cerimónia tão simples. Mitiku emocionou-se. Pôs-se a contar a história de um rapazito de 6 anos que fora para a casa dum tio em Addis Abeba para aprender a ler e a escrever. A saudade da mãe fê-lo regressar, poucos meses depois a Chebo, esquecendo os estudos. Subiu a montanha com um rebanho e assim foi crescendo. Mitiku era o rapazito. Ele tinha 12 anos quando um dos irmãos adoeceu e decidiu, olhando para as estrelas, ser médico. Inscreveu-se na escola e venceu as etapas, levando diplomas, prémios e a bolsa que o projectaria para fora do pais para vir a ser a pessoa atípica sentada ao meu lado. Read More