“Diz-me o que lês, dir-te-ei quem és”

Falar dos livros é falar um pouco de mim, revelar-me de certa forma.
Devo ser bicho!
O livro é tudo para mim.
Dantes passava horas em livrarias ou alfarrabistas a folheá-los. Muitas vezes comprava por intuição, mexer-lhes, tocar-lhes, ler uns trechos. Procurar outro, voltar atrás, pegar nele mais uma vez… era praticamente um ritual.
Outras vezes procurava o livro, influenciada pela crítica literária.
Com o primeiro ordenado, um emprego de Verão, tinha então 14 anos, comprei os meus primeiros livros. Pela primeira vez e aos poucos, edificava a minha biblioteca.

A biblioteca é para mim um espaço sagrado. Representa o individuo e a sua personalidade. Embora tenhamos ainda uma biblioteca por montar em casa, é um lugar reservado, longe de qualquer tipo de olhares.

Aceito dificilmente a banalização do livro.
Devo ser antiquada!
Comprar um jornal e por mais uns tostões, ter um livro dum autor de renome… abomino!
Mas cá em casa, há quem compre. A biblioteca vai-se enchendo de livros que não foram sentidos, amados à nascênça.

Com o passar dos anos, aprendi a não emprestar livros.
Devo ser um monstro!
Por duas razões: ou porque não mos devolviam ou porque os livros são os meus apontamentos. Sublinho, anoto, escrevo.
Os marcadores são bilhetes, postais, facturas, desenhos… qualquer coisa à mão no momento.

Ainda me lembro de dar uma aula de dança cujo tema era o livro. Um projecto que queria na altura desenvolver com pessoas da 3ª idade. E lá trouxe eu o livro. Cheirámo-lo, porque gosto do cheiro deles, abrimo-lo, fechámo-lo, colocámo-lo sobre a cabeça, debaixo dos braços, subimos para cima dele, descançámos ao pé dele.

Depois, aprendi a não entrar mais em livrarias porque desde há 8 anos para cá, não as tenho perto de casa. Tenho sempre uma lista de livros por comprar quando vou à cidade, mas já não é como dantes.
Compro para as minhas filhas lerem.

Há dois meses, num encontro ocasional no Jardim da Estrela, a J. veio para me emprestar 3 livros. Não se pode dizer que nos conhecemos muito bem, mas há certamente uma forte empatia.
Senti-me incomodada, mas o seu gesto foi tão bonito.
Puz-me a olhar para os livros e a reconsiderar a minha pessoa.
Emprestarem-me três livros e ter medo de os estragar.
Emprestar e tentar ver o outro com a sua escolha.
Que experiência extraordinária!
Experiência essa que não é comparável ao livro emprestado da biblioteca.

E mais uma vez olho para mim. É o passo que ainda não consigo dar. O livro é tudo para mim.
Não consigo banalizá-lo. A prenda mais querida que me foi feita recentemente: As Mulheres do meu País de Maria Lamas, por quem sabia que eu poderia apreciar estas leituras.
… e pensar que há algumas editoras que andam a queimar livros por falta de espaço em armazém…
Devo ser danada!

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