O Velho Chinês

Praticamente todas as noites contei uma história, inventada por mim, à C., como tantas vezes em casa quando os livros aborrecem e a imaginação vem ao decima. Ainda em Shanghai, contei-lhe a História do Velho Chinês.

Todas os dias a caminho do metropolitano cruzava-me com o velho chinês. Ele passeava na rua todas as manhãs com os seus chinelos de pano preto, as meias brancas, umas calças demasiado subidas e apertadas com o cinto. Para caminhar fazia-se ajudar de uma bengala. Nunca consegui dar-lhe uma idade porque apesar dos muitos anos de vida e do cabelo grisalho, não se via uma ruga.

Como todas as manhãs, a caminho do metropolitano, esperava encontrar o Velho Chinês. A rua parecia deserta sem ele. No segundo dia, também não voltei a vê-lo.

Recordo-me da única vez em que ele e eu travámos uma conversa e contou-me a sua vida.
Tiveram um filho que por sua vez casou e que não tardara em dar à luz uma filha, sua neta.
Passados poucos meses de vida a neta foi viver para a casa dos avós.
Ele levou-a a conhecer o país de norte a sul, das montanhas até à costa. Mostrou-lhe o mundo visto debaixo de água, porque também é mundo.
Ele esperava assim, que um dia, quando ela fosse grande, a memória destas viagens lhe desse maturidade para poder ver as coisas e as pessoas de outra forma, sem julgar e com grande serenidade talhar a sua personalidade.
A neta cresceu mais ainda e um dia casou, saiu de casa para viver com o marido em casa dos sogros. Ele sabia que não voltaria a vê-la, não porque não gostassem um do outro, mas porque assim mandava a tradição.

Enquanto pela madrugada os vizinhos penduravam as gaiolas nas árvores para fazer os exercícios físicos, o velho chinês passeava na rua que me levava ao metropolitano. Ele continuava a ver o mundo, mas em ponto pequeno.

Ao terceiro dia, fui bater à porta da vizinha do Velho Chinês.
– “Vejo-o, sim. Hoje faz três dias que vai para Guangchang no centro da cidade” respondeu ela.

E sem demora, fui ao seu encontro.
Guangchang é um jardim, rodeado de viadutos e arranhas céus e encontrei-o sentado, frente ao lago.

– “Vem agora para cá passear?” interroguei.
O olhar dele continua fixo no lago. A mão agarrou ainda com mais força a bengala como se fosse uma âncora.
– “Sei que muito em breve vou reencontrar a minha mulher. Não tarda, não. Mas se aqui estou é porque foi o último lugar onde levei a minha neta.
Estávamos sentados aqui os dois. Queria monstrar-lhe que nesta imensa cidade, onde os edifícios altos desafiam os céus, onde o barulho dos transportes é constante e ensurdecedor, é possivel estar aqui rodeados de árvores, tantas plantas e ouvir o chilrear dos pássaros”.

Todos os dias antes de apanhar o metropolitano que me leva a caminho de casa, vou-me sentar num banco num ou outro jardim de Shanghai para ouvir a História do Velho Chinês.

Partilhar Un Rêve pour toutes les Nuits. É a história do Pequeno Tang que ao longo do livro vai descobrindo as palavras secretas do sonho. São estes ideogramas que ele irá encontrar durante a sua deambulação através a China e que com o tempo e a descoberta de locais novos irá aprender a escrita chinesa.

No fim do livro, um pequeno léxico chinês indica os vinte ideogramas da história e o seu significado.

Un Rêve pour toutes les Nuits
de Lisa Bresner
Ilustrações de Frederick Mansot
Caligrafias de Dong Quiang
Actes Sud Junior, 1999

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