Conservar (II)

A Dona E. bateu à porta para me oferecer uns bons quilos de morangos. Foram tantos este ano e eu contente por voltar a fazer mais uns doces porque o Inverno é sempre longo e que a época deles é muito curta.





Aproveito a ocasião para apresentar outra maneira de conservar os doces.
Este método é também simples e ao contrário do outro, o método de conservar faz-se a frio. Traz uma grande vantagem porque pode verificar-se imediatamente se o doce está feito e no caso de estar ainda muito líquido, voltar a cozê-lo.

Quando o doce está pronto, deve-se colocá-lo de imediato no frasco e deixar arrefecer toda a noite, protegido por um pano bem limpo.
Na manhã seguinte, derreto a parafina em banho-maria, lentamente (é um produto inflamável) e a quente, verto sobre o doce formando uma espessura de meio centímetro.
Quando a parafina arrefece, ela solidifica-se e forma naturalmente um tampo hermético.
Para melhor proteger a parafina do pó, podemos colocar um tecido ou um papel.



Para consumir o doce, basta colocar o dedo numa das extremidades do tampo fazendo uma ligeira pressão e a parafina sai.
A parafina é reutilizável, por isso ela é recuperada e lavada.

Não foi por maldição mas é a tradição



É no meio das giestas que fomos apanhar o rosmaninho e a margaça. A marcela é muito mais difícil de encontrar porque, por onde andou o fogo, ela não volta a crescer.
As tarefas em casa ficaram assim divididas, naturalmente ao sabor dum verão que agora começou.
A C. preferiu ficar na cozinha e surpreender a família, confeccionando em segredo o seu primeiro jantar. Pegou num livro de receitas mas a capa deu-lhe algumas ideias. Nasceu uma salada muito original, saborosa e bastante decorativa.



Os vizinhos juntaram-se à volta da pequena fogueira, queimando os ramos secos e odorantes da colheita da manhã. Desafiando o fumo, as crianças e os menos novos, entoaram quadras populares.

S. João, S. João
nos livre do pulgão.
S. João, S. João,
nos dê um bocado de pão.

S. João, S. Pedro e S. Lucas,
que 3 filhos da p...

S. Pedro, S. Pedro,
nos livre deste bruxedo.
S. Pedro, S. Pedro,
nos livre do pulguedo.




Na aldeia vizinha os rapazes juntaram durante a noite todos os vasos de flores no adro da capela.

Não foi por maldição, foi por tradição.
Que viva o S. João!

O Velho Chinês

Praticamente todas as noites contei uma história, inventada por mim, à C., como tantas vezes em casa quando os livros aborrecem e a imaginação vem ao decima. Ainda em Shanghai, contei-lhe a História do Velho Chinês.



Todas os dias a caminho do metropolitano cruzava-me com o velho chinês. Ele passeava na rua todas as manhãs com os seus chinelos de pano preto, as meias brancas, umas calças demasiado subidas e apertadas com o cinto. Para caminhar fazia-se ajudar de uma bengala. Nunca consegui dar-lhe uma idade porque apesar dos muitos anos de vida e do cabelo grisalho, não se via uma ruga.

Como todas as manhãs, a caminho do metropolitano, esperava encontrar o Velho Chinês. A rua parecia deserta sem ele. No segundo dia, também não voltei a vê-lo.

Recordo-me da única vez em que ele e eu travámos uma conversa e contou-me a sua vida.
Tiveram um filho que por sua vez casou e que não tardara em dar à luz uma filha, sua neta.
Passados poucos meses de vida a neta foi viver para a casa dos avós.
Ele levou-a a conhecer o país de norte a sul, das montanhas até à costa. Mostrou-lhe o mundo visto debaixo de água, porque também é mundo.
Ele esperava assim, que um dia, quando ela fosse grande, a memória destas viagens lhe desse maturidade para poder ver as coisas e as pessoas de outra forma, sem julgar e com grande serenidade talhar a sua personalidade.
A neta cresceu mais ainda e um dia casou, saiu de casa para viver com o marido em casa dos sogros. Ele sabia que não voltaria a vê-la, não porque não gostassem um do outro, mas porque assim mandava a tradição.

Enquanto pela madrugada os vizinhos penduravam as gaiolas nas árvores para fazer os exercícios físicos, o velho chinês passeava na rua que me levava ao metropolitano. Ele continuava a ver o mundo, mas em ponto pequeno.

Ao terceiro dia, fui bater à porta da vizinha do Velho Chinês.
- "Vejo-o, sim. Hoje faz três dias que vai para Guangchang no centro da cidade" respondeu ela.

E sem demora, fui ao seu encontro.
Guangchang é um jardim, rodeado de viadutos e arranhas céus e encontrei-o sentado, frente ao lago.

- "Vem agora para cá passear?" interroguei.
O olhar dele continua fixo no lago. A mão agarrou ainda com mais força a bengala como se fosse uma âncora.
- "Sei que muito em breve vou reencontrar a minha mulher. Não tarda, não. Mas se aqui estou é porque foi o último lugar onde levei a minha neta.
Estávamos sentados aqui os dois. Queria monstrar-lhe que nesta imensa cidade, onde os edifícios altos desafiam os céus, onde o barulho dos transportes é constante e ensurdecedor, é possivel estar aqui rodeados de árvores, tantas plantas e ouvir o chilrear dos pássaros".

Todos os dias antes de apanhar o metropolitano que me leva a caminho de casa, vou-me sentar num banco num ou outro jardim de Shanghai para ouvir a História do Velho Chinês.

...





Partilhar Un Rêve pour toutes les Nuits. É a história do Pequeno Tang que ao longo do livro vai descobrindo as palavras secretas do sonho. São estes ideogramas que ele irá encontrar durante a sua deambulação através a China e que com o tempo e a descoberta de locais novos irá aprender a escrita chinesa.

No fim do livro, um pequeno léxico chinês indica os vinte ideogramas da história e o seu significado.

Un Rêve pour toutes les Nuits
de Lisa Bresner
Ilustrações de Frederick Mansot
Caligrafias de Dong Quiang
Actes Sud Junior, 1999

Descobrindo Shanghai





Os dias e as semanas passaram a um ritmo alucinante. A "memória" do dia 4 de Junho obrigou o governo a dificultar os acessos à net, uns dias antes da data e na semana que se lhe seguiu, por isso, não consegui dar notícias.
O que vou deixar aqui são as impressões duma curta estadia num país que vale a pena um dia conhecer.

A C. e eu deixámos para trás tantos sorrisos que nos acolheram, tantas fotos em que os chineses fizeram questão de tirar. Os nossos grandes olhos de europeus foram o maior fascínio.



Tentámos penetrar a cidade, visitando os seus museus, caminhando pelas avenidas infinitas, correndo atrás do metropolitano, mergulhando na poesia dos seus jardins, conscientes que há muito mais para ver.
Uma escapadela em Hangzhou permitiu-nos entrever o céu azul que tanto faz falta a Shanghai.





Tive muitas dificuldades em encontrar algodões tradicionais, não obstante os mercados de tecidos, mas a grande maioria dos chineses têm os olhos postos no futuro. Fazem de nós um povo ainda muito mais pequeno porque a China sendo um país imenso, com imensa gente, absorve com uma velocidade estonteante as novas tecnologias.



Há lugares que vou deixar com saudades. A primeira é sem dúvida a loja da Mina Hu. A simplicidade com a qual me recebeu, num espaço que se quer antes de tudo o coração vivo duma China rural e étnica, contrasta com Shanghai. Foi neste ambiente que descobri tecidos tingidos com folhas da Indigofera e o seu processo de fabrico está amplamente ilustrado num lindo álbum fotográfico.
O segundo lugar prende-se mais com a minha pessoa e com os locais onde eu cresci. Red Town onde me identifiquei muito é o exemplo do reaproveitamento de espaços fabrís reconvertidos em galerias de arte, escritórios, ateliers de pintura, espaços de creatividade na àrea do design industrial ou outros, em corredores onde se multiplicam as esculturas em cada esquina. Lá fora, o espaço verde envolvente é mais uma vez o prolongamento do que estes espaços encerram. A C. e eu vimos a exposição do Alberto Corazón rivalizando com outras galerias de artistas chineses.



Mas para a C. os lugares que mais a marcaram e para citar só dois, foram o Shanghai Ocean Aquarium com os seus 155 metros de tuneis debaixo de água, deixando-nos guiar por um tapete rolante, o que lhe permitiu ver de muito perto a barriga do tubarão ou ainda a foca que durante largos segundos lhe deu uns beijinhos através do vidro.
Teria sido uma grande lacuna se ao deixar Shanghai não tivéssemos ido à loja da barbie. Sobre 6 andares numa das elegantes avenidas da cidade, a C. maravilhou-se com este mundo. Neste espaço, há roupas, SPA, cabeleireiro, passarelas, sessão fotográfica para barbies da idade dela. Também há barbies em ponto pequeno, mas o melhor ainda será espreitar aqui.





Tanto para a C. como para mim, o nosso melhor refúgio foi o jardim. É o espaço de lazer, de descanço, de reflexão, de encontros. Foi nesse lugar que descobrimos o som do pássaro, abstraíndo o som da urbe. É impressionante quando entramos num jardim, descobrirmos o silêncio da cidade.





Shanghai está em obras. Uma obra é sinónimo de progresso. Daqui a um ano, Shanghai será palco da Exposição Universal 2010. O pequeno Hai Bao (que significa pequena onda) é anunciado em toda a parte, em todos os lugares. Será a oportunidade para muitos conhecerem esta cidade que hoje alberga 18 milhões de habitantes.

Por último, quero agradecer aos meus amigos a possibilidade que nos deram de poder fazer esta magnífica viagem. Sem esse convite, não teríamos a possibilidade de entrar na China. Sem eles, nada teria sido possível.
Apercebi-me que a informação sobre a China muitas das vezes nos vem deturpada por ambos os lados, mas Peter Hessler escreveu um livro, uma referência marcante cujo o título China, convido à leitura, para melhor compreensão deste imenso país com um povo, uma cultura, uma civilização, que temos todo o interesse em conhecer, compreender e respeitar.





Bem hajas à C., ao Z. e ao S.

...

Partilhar entre tantos outros lugares de Shanghai o famoso e muito bonito restaurante Shintori com uma cozinha "Fusão".

Da cabeça aos pés, falo sobretudo dos sapatos na Suzhou Cobblers. Lindos!

Ontem



Tudo parece descomunal e nós muito pequenos ao pé do Science & Tecnology Museum ou do Century Park que visitámos ontem para festejar o Dia Mundial da Criança.
O muito bonito parque com os seus jardins temáticos fez as delícias de numerosas famílias chinesas, muitas diversões quer seja de barco, de bicicleta, em passeio com papagaios ao vento rivalizando com os aranha-céus e sempre, de máquinas fotográficas à mão para memorizar o dia.





Ontem a J. recebeu este livro escrito por Sam McBratney com as ilustrações de Anita Jeram São Todos os Meus Preferidos.
Para que ela o possa ler calmamente e para reforçar a ideia de que tenho 3 lindas filhas e que gosto delas todas por igual.

São Todos os meus Preferidos
de Sam McBratney
ilustrações de Anita Jeram
Editorial Caminho, 2008